Coronel da Polícia Militar conduzindo sua tropa durante formatura, em uma reflexão sobre liderança servidora, respeito e o compromisso de servir às pessoas.

Liderança Servidora: a Arte de Servir

Você conhece o verdadeiro significado e sentido de uma verdadeira liderança? Uma liderança servidora?

Durante mais de trinta anos ouvi inúmeras definições sobre liderança.

Diziam que líder inspira.

Que chefe manda.

Que líder influencia.

Confesso que, depois de comandar milhares de homens e mulheres, descobri que nenhuma dessas definições, sozinha, explica o que realmente significa liderar.

A arte de servir, minha forma de liderar

Desde que saí de casa, aos 14, quando ingressei na Escola Preparatória de Cadetes do Exercito (EsPCEx), em 1990, e continuei meus estudos, na Academia de Polícia Milita do Barro Branco (Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar paulista), tive a oportunidade de aprender muito com excelentes comandantes, aprendi sobre liderança de tropa, liderança em situações de combate e tal. Depois, no transcorrer da carreira, comandei dezenas, centenas e, ao final, milhares de policiais militares, exercendo liderança.

Foi em 1996, durante minha formação, que tive uma virada de chave, quando li o “Monge e o Executivo”, publicado em 1990, e realmente absorvi os ensinamentos da obra e apliquei em toda a minha carreira. Lá aprendi o conceito de “líder servidor”, e vi real sentido no que se pregava sobre ser um líder, uma pessoa que poderia utilizar seu cargo para servir aos demais, e, assim, atingir excelentes resultado.

Aos olhos do militarismo, meu modo de agir ia de encontro ao que se esperava de um comandante, aquela autoridade a quem deveriam ter submissão e respeito, não alguém que ouvia muito seus subordinados.

Fui taxado de fraco, mas, ao acreditar nesse modelo, segui firme e constante, em meu modo de agir.

Quando um líder decide servir

Mas, um dos conceito que bem compreendi dizia respeito a uma verdadeira inversão da pirâmide: se antes os vassalos, a tropa a corte serviam para servir ao rei, ao coronel, ao general, esse conceito pregava justamente o contrário, o líder deveria servir aos demais para cumprir o seu dever.

Como assim? Um líder servidor, literalmente falando.

Entendi que sua verdadeira missão era a de facilitar e prover condições para que os demais pudessem trabalhar e, assim, bem servir sua organização, a população, seu país e tal.

Em meu quartel, entendi que o comandante, por meio de seu Estado-Maior (staff), deveria ouvi-los, tomar decisões, de modo a prover as condições de trabalho necessárias (meios, fardamento, salários, seus direitos etc.), de modo que sua tropa pudesse ter a tranquilidade necessária para o desempenho de suas funções.

Um comandante não caminha à frente para ser admirado. Caminha à frente para abrir caminho… Descobri que um líder é muito parecido com quem acende as luzes antes de um espetáculo. Quase ninguém percebe seu trabalho, mas sem ele ninguém consegue atuar.

Nunca esquecerei quando um soldado pediu para entrar em minha sala apenas para agradecer porque, pela primeira vez, sentia que alguém havia discutido um problema e dado ouvidos a ele. Assim, aprendi que um policial trabalha melhor quando sabe que seu comandante está ao seu lado, e não apenas acima dele.

O resultado aparece nas pessoas

Bem, antes de falarmos dos resultados, falemos das pessoas.

Ninguém gosta de ser tratado como simples peças de tabuleiro, de massa de manobra. Todos queremos nos sentir úteis, necessários, ouvidos. Acho que isso resume tudo, dá sentido e empolga.

A partir do momento em que você vê isso e passa essa conduta aos demais, você não mais age só, não mais uma única cabeça pensante – bem ou mal -. Temos um exército inteiro que começa a lutar pelo ideal comum, e, consequentemente, por você, líder.

O resultado disso são os números conquistados, as pessoas realmente engajadas e novos líderes inspirados.

Trabalhando no corporativo, o erro que ainda vejo nas empresas

Não adianta você se gabar de ser intitulado “Comandante”, se você não tem sua tropa na mão; não adianta ficar falando “Time”pra cá e pra lá, se você é um “técnico” sem um time realmente comprometido, e sua voz não ouvida…

O que observei e ainda muito vejo por ai – em empresas, inclusive e sobretudo – são “líderes” que ainda não compreenderam muito bem isso, apenas mandam, a fim de que “seu” time alcance os objetivos que ele quer, estando só, pois as pessoas entendem que tais objetivos são os dele, não dos demais, e, ai, tanto faz para quem só resta obedecer. Se a equipe consegue resultados, quem “lucrará com ele será apenas o chefe, ele será reconhecido, será promovido e o restante parcas participações.

No meio militar, não tínhamos participações em resultados, tampouco promoções por isso. Mas a comemoração da equipe, as glórias de todos, por si só bastavam.

Faltam bons líderes

Bem, repito e finalizo o texto, com a seguinte reflexão: lidamos sobretudo com pessoas, servindo pessoas… E é essa a razão de toda uma estrutura: conduzir bem.

Penso que, quando uma organização se conscientizar de que bons resultados possam advir de lideranças respeitosas e motivadoras, teremos servidores mais engajados e participativos, os quais poderão fazer totais diferenças. O contrário disso, a perda de um time inteiro, seu adoecimento.

Um eterno aprendizado e respeito às pessoas. Desenvolvamos cada vez mais a arte de liderar, então.

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