onte sobre um longo rio ao pôr do sol, com caderno, caneta e bússola em primeiro plano, simbolizando liderança, conexões humanas e construção de pontes.

Muito Além do Networking

Certa vez, meu antigo Diretor perguntou-me como eu conhecia tanta gente. Eu respondi: valorizo muito a conexão com as pessoas e o poder da verdadeira amizade. 

Diferentemente disso, muitos erroneamente compreendem o verdadeiro significado de network

Com relação à facilidade de conhecer pessoas, durante toda carreira policial militar, por conta de trabalharmos para a sociedade, nas ruas, participando de inúmeras reuniões e eventos, acabamos criando a habilidade de facilmente nos relacionarmos com a população, e, desses conhecimentos, prósperas amizades sempre foram criadas. Assim, herdei essa competência, por fazer parte de toda a minha carreira. 

Veja, por vivermos em sociedade, sempre acabamos conhecendo pessoas aqui e ali. Desses contatos, muitos podem virar boas ligações para a vida, independentemente do que fazem ou possam fazer por você, e vice-versa.

Por outro lado, muitas pessoas, seja por falta de sinergia ou porque não agregarão em nada sua vida, passarão batidas e figurarão apenas como simples contatos, até esquecidos no futuro.

E é ai que mora o segredo da coisa: quando possível, cultivar boas amizades, independentemente de interesses – o que eu acho extremamente feio e dispensável –. Pode ser que jamais precisemos delas, ou não. No meu caso – o de um Oficial da Polícia Militar – era mais a população que poderia precisar mais de mim do que eu dela.

Assim, o valor dessas fortes ligações deve residir na amizade e, sobretudo, na possibilidade de ajudarmos uns aos outros, quando e se necessário. A beleza disso tudo: estarmos dispostos e disponíveis (as duas partes)  a sermos lembrados, quando preciso. Como dizem, – e até é pertinente, aqui, esse ditado – “uma mão lava a outra, e ambas lavam o rosto”.

o valor dessas fortes ligações deve residir na amizade e, sobretudo, na possibilidade de ajudarmos uns aos outros, quando e se necessário

Certa vez, quando comandava um Batalhão, deparei-me com um problema, ao meu ver, diante do que eu podia ver e compreender, insanável. Intui que um amigo, uma pessoa com mais experiência, poderia clarear minha mente e conversei com ele. 

Lembro-me perfeitamente da sensação. Eu havia analisado o problema por todos os ângulos possíveis e, sinceramente, não enxergava saída. Foi então que liguei para ele, alguém mais experiente. Ele ouviu tudo em silêncio e disse apenas: “Deixe comigo”. Depois de uma ligação, alguns minutos depois, o problema que me parecia intransponível começou a se desfazer diante dos meus olhos.

A verdade é que muitas vezes, há situações em que, por conta de nossas limitações e falta de conhecimento e visão, possamos nos defrontar com abismos, mas são essas conexões que podem criar verdadeiras pontes para transpor essas dificuldades.

Ocorre que muita gente acha que simples trocas de cartões de visitas sejam a criação de network, mas não é bem isso Você acaba, sim, conhecendo pessoas em eventos ou reuniões, mas essas sólidas pontes demandam confiança e, principalmente, desinteresse.

Não é tanta gente, assim, que eu conheço. Não tenho e, também, não quero ter “um milhão de amigos”, como já dizia Roberto Carlos, mas, sim, verdadeiros e leais companheiros de jornada, com os quais possamos criar essas ligações e outras futuras. Para isso, você precisa gostar de conhecer e se relacionar com eles, com pessoas. 

Gosto muito de uma frase de Tati Bernardi, que traduz exatamente esse pensamento:

Gosto das pessoas pelo prazer de gostar e não porque deu tempo de gostar delas.

Curiosamente, aquilo que nasce sem interesses acaba produzindo excelentes resultados profissionais. Empresas valorizam quem conhece processos. Mas valorizam ainda mais quem conhece pessoas, porque problemas complexos raramente se resolvem apenas com procedimentos; resolvem-se por meio da confiança construída ao longo dos anos.

Ainda, digo mais, e que reputo como a mais importante e valorosa questão: essas ditas pontes propiciam entrelaçamentos com outras realidades e culturas, e isso certamente aumenta  seu modo de ver o mundo, de ter uma melhor visão dele, diferentes perspectivas, e poder propor ideias diferentes e inovadoras, pensando “fora da caixa”. 

Talvez seja esse o verdadeiro significado do networking. Não colecionar cartões, mas cultivar pontes. Porque, cedo ou tarde, todos nós precisaremos atravessar algum rio. E quase sempre serão as pessoas que caminharam conosco que nos ajudarão a chegar à outra margem e possibilitará vermos novos horizontes.

One response

  1. Gostei desse seu post Kage. Traduz muito bem o que alguns de nós buscamos (pelo menos eu acho que é assim) que é ter relacionamento com pessoas para além de abrir caminhos, criar um laço de amizade que possa durar e que mutuamente nos ajudemos pelo simples fato de ser bom para os 2 lados e, também por ser a coisa certa. Admiro e tenho respeito por ti. Parabéns pela grande reflexão. Obrigado pelas palavras a seguir “Empresas valorizam quem conhece processos. Mas valorizam ainda mais quem conhece pessoas, porque problemas complexos raramente se resolvem apenas com procedimentos; resolvem-se por meio da confiança construída ao longo dos anos”. Vou usar elas no meu dia-dia.

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