Pote de sorvete de pistache sobre uma mesa de madeira, ao lado de um caderno, uma fotografia antiga e uma colher, iluminados pela luz suave do entardecer, evocando memórias da infância e da presença da família.

À procura do pistache

Sempre que vejo uma sorveteria procuro pelo sabor de pistache.

Médico, por vezes, meu pai voltava tarde em casa, depois de horas no hospital fazendo cirurgias. Era bem pequeno, mas me recordo que ficava na janela, esperando sua chegada.

De vez em quando, conseguindo passar na padaria, ele parava e comprava sorvete para a gente. Era uma antiga padaria, que possuía uma fabricação própria de sorvetes. Eram bem tradicionais no bairro. 

Sempre trazia uns dois potes. Recordo-me que eram potes grandes parecidos com os atuais copos de papelão, daqueles de café, só que grandes, enormes para uma criança.

Não sei como, mas ainda sinto o gosto daqueles sorvetes… Recordo-me que o meu preferido era o de pistache.

Não me lembro muito do olhar de meu pai ao ver crianças (eu e meu irmão) felizes enchendo as colheres e abrindo aqueles bocões, e minha mãe rindo de nós. Mas recordo-me daqueles potes, dos sabores, e da textura. 

Incrível como aromas, sabores, sons, marcam incríveis momentos que vivemos.

Imagem filme Ratatouille, quando Anton Egon, um severo crítico de gastronomia prova um ratatouille e se transporta para sua sua infância.

Às vezes, olho para o céu e vejo colorações e nuvens, as quais me transportam a locais específicos por onde passei. Às vezes, digo que o dia está com cara de praia, sem mesmo ter o mar por perto, pois determinada coloração de céu, formato de nuvens, temperatura etc., remetem-me ao ambiente de Paraty, onde em determinado momento fiquei contemplando o azul celeste, as nuvens, os pássaros bailando, cantando, e sons quaisquer ao fundo…

Talvez, aquele olhar para o céu de Paraty tenha durado frações de segundos, mas o tempo parou.

O fato é que vivemos correndo contra o tempo e, paradoxalmente, não vivemos. Deveríamos sentir mais os cheiros, reparar nas luzes, nas estrelas, no céu. Repararmos nas feições, nos toques, nos sorrisos de nossas companhias, e apenas vivenciarmos os momentos. 

O rio da vida corre rápido, e, por vezes, costumamos não reparar em suas margens, suas belezas e percepções. Elementos sutis que mostram o quanto é bela toda sua trajetória, mas ficamos mergulhados sob as águas turbulentas de nosso dia a dia.

Curioso é que costumamos guardar todas as lembranças em fotografias, com sorrisos posados, sem cheiros e percepções, quando poderíamos guardá-las em nossas memórias; elas por completo, momentos intensamente vividos.

Não haveria mais a necessidade de fotografias. Talvez, apenas para contar a alguém sobre um dia especial. Ou, talvez, seja a fotografia o único modo de registrar elementos não percebidos, presentes momentos não presentes, vazios…

Guardo em minha memória muitas lembranças.

Quanto aos sorvetes, na verdade, gosto de outros sabores, até. Mas sempre procuro o de pistache. Não por ser o meu preferido, mas por tentar voltar à margem daquele rio, que um dia passei e vivi.

Gosto daquele gosto, do gosto de ver meu pai chegando em casa…


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